sábado, 8 de fevereiro de 2014

Relato 088 : Por que não tive muitos amigos?

  Uma pergunta que até hoje não sei responder com perfeição. Pode ser porque sou diferente e as pessoas não gostam disso. Só o fato de eu existir já é uma violação. Mas também tenho que levar em conta que não sou uma pessoa legal. Sou daquelas que riem de acidentes, que não choram pela morte alheia, que não se importa como você está e que possivelmente vai te ofender, às vezes só de existir. Não sei se os poucos que gostam de mim, ou não tem opção (muito provável), ou são loucos (também muito provável) ou simplesmente gostam de mim, o que eu acho difícil de acontecer. Já que nem eu gosto de mim. Minha relação comigo melhorou um pouco, mas falta uma vida pra melhorar. Enfim.
  Nem sempre fui a melancólica, um dia fui simpática. Era porque eu era criança de uns 4 ou 5 anos e nunca havia saído de casa. Eu fui pra creche aos 4 anos (eu acho), só que nos 5 passei só a metade do ano por causa de uma cirurgia na perna (eu nasci com luxação congenita). Na creche eu era uma criança que brincava e corria pra todo lado...sozinha. E eu lembro de ter tido uns amigos. Estes geralmente eram aqueles que ficavam sozinhos e eram quietos. E eu tipo me aproximava e começava a brincar com eles. A amizade flourescia e conversávamos muito. Não era nada do tipo sexual, era uma amizade. Eu não os via como parceiros, via como amigos e com essa idade eu achava bobagem isso de amar e ficar com mimimi de casar, ter carro e etc. Eu nunca gostei da ideia de casar...
  Nas férias eu brincava toda hora, porque como eu dizia "cala boca e brinca" e coisas como "conversar é perda de tempo, vamos brincar! ". Acho que tinha razão no que dizia. Enfim, era chato quando não se podia brincar e ver TV era chato. Eu era uma criança ingenua e via jornal achando que ia me informar. Eu só via jornal e desenho, ambos, ficção. Também via uns filmes ou desenhos gravados, e via várias vezes quanto gostava. Essas eram as férias. Não percebia, mas passava todo tempo sozinha. Eu levava bronca e apanhava as vezes por quebrar algo sem querer, ou por reagir negativamente (como não querer sair). Meu pai às vezes pedia uma tesoura e eu não sabia onde ficava e demorava pra achar, gritava comigo por isso. Eu levei broncas por nada, apanhei por nada e fiquei só por nada. Sempre fui uma criança agradavel. Quando era bebê nem chorava. Nunca incomodei ninguém nesse mundo. Mesmo assim, gritavam comigo e me davam broncas e apanhei até os 5 anos, tudo sem nenhum motivo. Eu me entristecia com isso, sentia culpa, me sentia inutil e uma criança horrivel.
   Essa rotina foi assim foi até os 6 anos, só não apanhava. Enfim. Quando as aulas da creche voltaram, meu amigo tinha me esquecido e eu tinha ficado de novo sem ninguém. Eu arrumava outro amigo, bem parecido com o de antes..Que esqueceu de mim quando sai na metade do ano por causa da cirurgia. Aqueles dias na cama, no hospital, com a minha mãe lá. De dia eu passava olhando pro teto sem o que fazer. Ficava meses sem mexer a mão esquerda. A noite era difícil dormir pela posição ruim e belos gritos de dor pelo hospital. Eu dormia mal e não sonhava. Tudo o que queria era sair dali. Quando voltava pra casa, era quase igual. Ficava no quarto vendo tv ou jogando algo sozinha. Eu ainda queria me recuperar e brincar de novo. Conheço a sensação de se sentir inválida. É muito ruim. Fiz essa cirurgia pelo menos umas 4 (ou mais ) vezes, 2 (ou mais )em cada perna. Ou seja, além de ter aprendido a andar quando bebê, fiz isso mais 4 vezes. Eu pensava muito nesse tempo. Diziam pra mim deus iria me curar e não acontecia, eu nunca tinha feito nada de errado e nasci com aquilo, por que deus não curou ? Com perguntas como essa fui me distanciando na fé em deus. Foram dias difíceis.
   Com 6 anos eu deveria ir pra pré-escola, mas como iria fazer a cirurgia de novo e sair no meio, simplesmente decidiram que eu não iria. Foi nessa época que começaram a me levar na igreja. Era uma bosta, um tédio e tudo o que eu era, era pecado, mesmo não tendo feito nada de errado. Como eramos crianças, colocavam num lugar pra crianças, e ficavam pregando pra criança. Aquilo tudo era bobagem  e eu sabia. Mas eu fingia ligar, afinal era obrigada. Nessa época começavam a falar de sexualidade, que eu tinha que ser assim, tinha que gostar de disso, falar assim e etc. Eu realmente, nunca liguei pra isso. Eu descobri que era trans com uns 6 anos pensando sobre isso, já que não me sentia bem sendo o que sou, mas sim, sendo uma menina. Toda noite, antes de dormir, sonhava com isso...
   E virei ateia depois de meus pais brigaram comigo. Me senti tão mal que desejei a deus que me matasse..nada aconteceu. Desejei que desse um sinal...nada. Desejei que ele aparecesse e adivinha ? Nada. Achei estranho dizerem que ele estava em todo lugar e não aparecesse. Achei estranho mesmo com todas orações, eu não ter me curado logo, já que é todo-poderoso e bondoso, poderia muito bem dar felicidade a uma criança ? Acho que não, porque ele não existe. E sabe, foi bom saber disso. Mesmo assim, continuava sozinha e pela 1 vez eu pensei em me matar. Nunca tentei suicídio, mas pensei muito nisso, não fazia porque dava trabalho. Eu me tornei mais crítica e fria porque eu havia crescido. Só não saia perguntando por aí, senão apanhava ou gritariam comigo. Fiquei em silêncio. Depois a cada ano eu me tornava menos criança.  Na 1 série tive um amigo que entrou na sala chorando e sentei atrás dele pra ajudar. Lembro de dizer "tudo vai ficar bem e eu posso ser seu amigo". Foi uma amizade legal que durou até a 2 série quando ele mudou de sala. Até então, nunca nos falamos. Duvido que ele lembre de mim. Tive outros amigos, ou que me trocavam quando achavam alguém melhor ou que me esqueciam quando mudavam de sala. Sempre foi assim, desde então nada mudou. Quem vem atrás de mim, vem por interesses, não por mim. Agora eu tenho amigas e um namorado, que podem ser uma grande farsa. Só descobrirei quando conhecer eles de perto.
  Como eu gostava de brincar fui começar a fazer esportes na escola, só que não sabia como era. Então eu era muito ruim e pra ganhar nota, você tinha que fazer algo. Eu sempre era xingada de coisas que eu nunca tinha ouvido falar, falavam que era culpa minha perder e etc. Foi ruim também. A cada ano eu me tornava mais triste. Até que acontece que descubro a música. Começo por Guns e acabo baixando e conhecendo vários clássicos do rock.  Até que chego no grunge. Descubro que aquilo é pra mim, desde então meu estilo musical favorito é grunge. A música me salva. Eu passava horas no PC ouvindo, já que não tinha celular ou mp3. Com uns 12 anos. Com essa idade eu queria uma guitarra, mas não pedi porque sabia que não iriam me dar. Não gostam de mim. Nunca senti sinceridade no que chamam de "amor de família". Desde aquela época quero ter uma guitarra.
  A cada ano mais triste...mais infeliz...E ai com uns 15 ganho um celular. Meu galaxy y duos. Na época só tinha o 3g e então eu só acessava a internet pra ver coisas sobre sonhos e hormônios femininos. E ai, depois de um tempo, resolvi fazer dois diários.  Escrevia sobre coisas que pensava e sentia e outro diário de sonhos. Fiquei uns 6 meses nisso e depois me cansei. Fiquei mais mal. Ai colocaram internet wifi em casa e ai comecei esse blog que vocês olham uma vez ou outra...

Às vezes acho que tive minha adolescência na infância, minha vida adulta na pré-adolescência, minha velhice na adolescência e minha morte agora que vou entrar na fase adulta '-'

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