segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Como eu queria ter nascido

  O que é destino ? Uma ordem de eventos que irá acontecer a alguém, escritos. Vou escrever meu destino, como se fosse predefinido pela sensatez.
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   Era 1996, meia noite, um silêncio sombrio. Na maternidade os pais orgulhosos por terem um bebê saudável. Dava para ver um brilho nos olhares dos familiares, era como se o messias voltasse para salvar o mundo. Esperança cliché para todo lado e transbordando dos olhos. O levaram para casa. No caminho faziam planos para o bebê, o que ele faria ? Dominaria o mundo ? Casaria com um ricasso ? Mudaria o mundo ? Ou acabaria numa esquina tomando chá de cogumelo e se prostituindo pra fazer tatuagens e tomar mais chá ? Ninguém sabia, só que ninguém admitia. Só Deus* sabe diriam. Ou seja, apenas o bebê.
   Depois daquela conversa doida, continuaram a volta pra casa em silêncio. Porém, continuavam a pensar, o que seria melhor para aquela criança. Ambos já tiveram filhos. Ambos não tinham boas relações com os filhos. Por que ter mais um ? Pra ter mais brigas ? Desentedimentos ? A criança não tem culpa. Afinal, ela não pediu pra nascer. Até que num momento, a mãe diz "Vamos deixar a criança num canto.". O pai "Por quê ?", ela " Olha pra nós ! Nenhum filho que temos tem uma boa relação conosco..Sempre brigamos com eles, até esse ponto, tudo bem. Mas olha, quantos dizem nos amar sem receio ? ", o pai fica sério e diz "Então seria sensato abandoná-lo por quê ?", a mãe " Não vamos conseguir conhecê-lo bem. Por causa das nossas grandes limitações...mesmo perto...vamos estar longe....ele se sentirá sozinho..mesmo conosco....E não vamos tentar compreendê-lo, vamos achar que está tudo compreendido, vamos deixar coisas importantes de lado, por isso. É mais sensato abandonar ele agora, porque pelo menos poderá pensar "Meus pais me deixaram pois não tinham condições de cuidar de mim." Se continuarmos com ele, pensará " Meus pais são péssimos, estou aqui morrendo por dentro e sei que não poderam me ajudar, pois estão muito ocupados achando que está compreendido."". O pai diz "Tudo bem, pra onde vamos ?" , a mãe "Pra um orfanato....".
   Eles seguem na madrugada ártica de Curitiba em busca de um bom orfanato, os sem cruz.  Acham um. Com aparência de um velho prédio imperial, meio sujo e velho, mas nada que abalasse a elegância. Cabia ao pai fazer isso, pois a mãe ainda precisava se recuperar do parto**. Numa caixa de papelão com cobertas dentro, o pai levou a criança para a porta do orfanato. Que se sabia que era tal, devido a grande placa escrito "Orfanato". O pai coloca a caixa próximo a porta e corre pro carro, do carro, lança uma pedra contra a porta. Os dois aceleram e somem nas sombras da metrópole gelada.
  Na porta uma mulher de uns 40 anos com aparência de 30 (Sei da idade dela de verdade, afinal, sou a narradora onisciente.). Ela olhou pra caixa e pensou "Mais um, o que esse povo pensa ? Será que ninguém sabe que nem toda placa diz a verdade ? Deixando assim, uma criança num prostibulo...Esses não deixaram nem bilhete." pegando o bebê no colo, diz para o bebê como se entendesse "Não liga pra eles, vamos cuidar de você aqui. Você poderá ser o que quiser !!! Vamos estar com você, pra o der e vier. Vamos te apoiar quando for tentar seguir seus sonhos !!". Ela o mostra para uma amiga num sofá. A amiga "Nossa, mais um. Que nome vai dar ?", a que pegou a criança "Não sei. Tava pensando num nome unissex, pois por enquanto, não sabemos se será gay ou hetero ou bi, isso se mostra por volta de uns 6 anos de idade, depois a gente muda, se a criança quiser...", a outra "Que tal Marlin ?", a com o bebê "Bom, como meu nome é Rose e sou muito fã do John Paul Jones do Led Zeppelin. Que tal Marlin Rose Jones ?", a do sofá "Pra mim parece ótimo."
   A moça leva o bebê para um banho e logo depois o coloca quentinho numa cama com lençóis recém trocados, prontos para serem sujos de novo por um bebê.

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*Deus : pra mim só é um arquetipo de poder sobre algo. Exemplo : Um grande programador é um deus dos jogos que faz. Na história, eu quero dizer que eu sou dona do meu destino, portanto a deusa do meu destino.

**Não tenho certeza se a grávida após o parto pode sair por aí. Bem, se não pode, na minha história ela foi rebelde.

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   Eu prefiriria que algo assim acontecesse, seria sensato por parte dos meus pais. Talvez até tenham pensado (não com o mesmo vocabulário), mas talvez tenham pensado "Por que não fazemos diferente ?". É muito mais provável que nem tenham pensado em nada. Enfim, do jeito que me tratam, me sinto como se fosse uma órfã, adotada. Não é bonito, não perceber que estava mal. Nos dias que pensei sério em suicidio, era visível que estava muito mal, pelo meu olhar, meu jeito de andar, o tom da minha voz, qualquer um poderia facilmente perceber...Mas eles não o fizeram. E também, nunca me senti parte da minha família, sempre me tratam como se fosse adotada mesmo....Seriam bons pais, se tivessem me abandonado num orfanato quando criança....

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