quinta-feira, 27 de junho de 2013

Relato 025 : Órfã emocionalmente

  Bem, estou sozinha. Sem pais. Eles eram os únicos que eu me importava da minha família. Não fui expulsa de casa.... ainda. Eles apenas pensam em status. Apenas querem que eu seja "bem-sucedida" para poder se orgulhar. E também quando eu precisar deles, numa situação em que precise, eu sei e sinto que não posso contar com eles. Os outros familiares são iguais, a diferença é que descobri isso antes. Agora eu sei, sou uma órfã emocionalmente. Do meu pai eu aprendi que a autoridade vai fazer o que tem que fazer independendo dos sentimentos, circunstâncias e acontecimentos que se seguem. Ele simboliza a autoridade e o pensamento dela, e o homem primitivo que quer que o sangue e o nome da família passe para frente. Hoje (27/06) é oficial, nunca vão me aceitar. Quanto ao meu pai, sente uma forte repulsa por qualquer lgbtt( algo assim rs), isso eu sempre soube. Quanto ao meu irmão, é como todas as crianças da idade dele, idiotas, então você já sabe. Na minha mãe eu depositava mais esperança, principalmente quando um amigo me disse que as mães aceitam. Mas a minha não. Parece maldade dizer que a minha mãe é cabeça fechada, ou seja, ela nunca vai ouvir o seu ponto de vista ou ter empatia para tentar te compreender. Você deve ter pensado (ou não) que "Poxa, o que isso tem ver com a tua mãe te aceitar?" . Tudo. Hoje à tarde vendo o jornal depois do de meio-dia ela viu a notícia de que havia uma passeata de lgbtt s contra a "cura gay". Ela disse "Ah, mas eles não querem ser curado, querem continuar se machucando." e eu como questionadora "Por quê?", e ela "Claro, ficam fazendo um monte coisa, coloca peito, bunda e etc....", eu sem nenhum medo de ela suspeitar de mim disse "Deixa eles em paz. Se eles são feliz assim deixa eles. O que importa é ser feliz. Hitler era feliz perseguindo judeus e se todo mundo procurasse a felicidade, com certeza deve ter alguém que seria muito feliz matando ele.". Ela ficou quieta .
  Esses comentários aparentemente inocentes são uma amostra do que aconteceria. Um exemplo da inflexibilidade que ela tem : Quando o meu cabelo começa a crescer ela quer cortá-lo a todo custo, até mesmo contra a minha vontade. Essa determinação para fazer isso demonstra que ela não quer me compreender e quando pergunto "por quê?", ela diz que quer ter um filho limpo, antes disso diz claro. Ela acha isso lógico. Ela apenas quer cortar o meu cabelo porque gosta. Isso acontece com roupa também, quando visto uma camisa e ela não gosta, briga comigo. Se ela tem tanta sensibilidade para tentar me manipular aos moldes dela, imagina o que faria se lidasse com algo tabu à ela. Isso não é amor.
  É estranho, mas me sinto mais sozinha com eles do que com um amigo de verdade. Outra coisa que deve ser lembrada : gratidão forçada. Eu nasci com problemas nas pernas, tinha que fazer uma cirurgia para corrigir. A minha mãe correu atrás para agendar cirurgia rápido. A primeira delas eu fiz com 5 anos de idade. E fiz muitas outras até os 9 anos. Eu ficava se não me lembro quase o ano todo sem ir para escola. Alguns meses com gesso, outros sem gesso e a volta à andar. Lembrando disso, acho que aprendi a andar umas 4 vezes, sem contar com a primeira vez. E sempre senti que eu devia agradecer tendo que obdecer o modo que eles querem que eu seja. Uma destas tentativas na minha infância era me levar para igreja. No começo aquelas fábulas eram legais, porém não entendia porque as pessoas choravam e tocavam aquela porcaria de música. Com o tempo comecei a perceber que aquilo era burrice. Diziam que deus curava, que deus ajudava quem precisava... Bem não me ajudou, não ajudou o meu pai a pagar o carro atrasado que não conseguia pagar por causa do baixo salário. O chefe roubava parte de salário dos funcionários. Esse deus "todo-poderoso" não atendeu as orações desesperadas de minha mãe para me curar. Não foi deus que correu atrás da cirurgia ou que permitiu que meu pai conseguisse comprar outro carro, e sim eles conseguiram sozinhos. E por quê o maldito desse deus não acabou com chefe corrupto ? E também eu nem ao menos acreditava naquela bobagem, dizia que sim só pro outros não me olharem estranho. Com o tempo fui rejeitando esses convites de ir para igreja no domingo. Mas me levar forçado era a sua especialidade.
  A minha relação com o meu pai não é muito boa e assim acontece com minha mãe também. Eu não me lembro de pedir um conselho sequer para eles, ou de receber um consolo. Bem, e daí? Quem disse que família tem que ter o mesmo sangue. Sim, eu devo ser grata, porém o modo como agem comigo tira todo esse sentimento. Só porque ela fez uma cirurgia para reverter a cirurgia fez antes para parar de engravidar. Eu acho que ela pensa que sou um objeto moldável. Um produto com o mesmo propósito de um carro do ano, dar orgulho. E com diploma universitário então....
  Eu deveria chorar, mas não estou. Afinal, quem disse que só porque eu não tive um amor de pais significa que devo chorar, hein? E só porque quase toda a sociedade me odeia só pelo fato de eu ser bissexual e ateia significa que devo chorar? Me diga você...

Nenhum comentário:

Postar um comentário