domingo, 12 de maio de 2013

Relato 012 : Motivos em números

  Bem, eu estava mal, especialmente nesses últimos dias. O motivo: nada. Eu gostaria de ter uma coisa para dizer, "meus pais morreram", "fui expulsa de casa", mas não, não tenho nada para dizer assim. Se uma tragédia tivesse acontecido teria sido bom pois aí eu teria motivo, pelo menos isso. Tudo tem causa e efeito, e a causa dessa tristeza não conseguia achar até que...
  Um "amigo" que fala comigo na internet me disse que quem criava os meus problemas era eu mesma. Ele disse que eu tenho tudo, casa, só tenho que estudar, não trabalho, meus pais pagam curso de violão, e que a minha vida é fácil, ele disse também que se tivesse vivido a vida dele não teria durado, e que se deus trocasse o corpo dele com o meu já teria sido melhor do que os últimos anos da vida dele.
  Concordo com tudo, com exceção de deus existir.
  O problema da minha vida sou eu, mas ele não sabe que se eu for fazer o que quero, vou precisar de capital. Sim, vou precisar de dinheiro se quero fazer o vou fazer, não quero me prostituir, é contra os meus valores, sabe isso faz parte do meu plano de vida, não me prostituir.
  Isso inclui não trabalhar em coisas que não gosto.
  Ele não sabe que é certo a minha saída de casa se eu contar tudo. Vou fazer uma equação:

Ser o que sou = expulsa de casa

expulsa de casa sem dinheiro = prostituição

prostituição = emprego que não quero

Agora:

ser o que quero ser com dinheiro = ser expulsa de casa e ainda ter um lugar para dormir

ter emprego antes de contar = não presciso me prostituir

Entenderam, é muito simples.
Como sei que o meu banimento é certo: estatísticas.

Um estudo realizado na França fala sobre suicídios:

Segundo estudos realizados na França, as tentativas de suicídio entre gays e lésbicas durante a adolescência é de sete a treze vezes superior do que entre os jovens heterossexuais.

fonte: http://www.portugues.rfi.fr/franca/20110124-associacao-acolhe-adolescentes-homossexuais-expulsos-de-casa-pela-familia

Esse é da Folha de S. Paulo:

- Em 2008, 711 brasileiros entre dez e 19 anos se suicidaram; não há números específicos sobre gays
- Suicídio é a quarta maior causa externa de morte de jovens entre 15 e 19 anos (a primeira é homicídio)
- Estima-se que o número de tentativas de suicídio supere o número de suicídios em pelo menos dez vezes
- Pesquisas americanas mostram uma relação entre adolescência, homossexualidade e suicídio
- Jovens gays são de duas a três vezes mais propensos a tentar o suicídio quando comparados a jovens heterossexuais

fonte: www1.folha.uol.com.br/folhateen/822698-discriminacao-leva-jovens-homossexuais-ao-suicidio.shtml

Esse é do site Indikabem:
30% dos suicídios consumados e estão entre os mais altos índices estatísticos de problemas como depressão, conduta autodestrutiva, abuso de substancias químicas e entre a maior parte dos desabrigados

fonte: www.indikabem.com.br/filhos/2013/05/se-voce-achar-que-seu-filho-e-gay/

Ops! Não achei estatísticas de expulsão de adolescente por causa da bissexualidade, mas achei essas estatísticas sobre suicídio e autodestruição que são bem interessantes. Segundo o CQC do dia 13/05 o Brasil é o primeiro lugar em assassinatos de gays. A homofobia faz parte da cultura brasileira.
  Muitos desses suicídios ocorreram pela desaprovação e pelo sentimento de inferioridade. Não ligo para o que os outros pensam de mim, mas ligo para o que os outros possam fazer de ruim contra mim. Sabe, eu posso contar, pois nada me impede, como tudo na vida tem consequências, a consequência vai ser que eu vou sair de casa. Como sei disso simples, mais equações:

pais cristãos não praticantes = odeiam gays e bissexuais

pais orgulhosos que querem se mostrar que tem uma família estruturada =  acham que um gay na família significaria família desestruturada

A aceitação deles pode vir dessas maneiras:

* Eu não passar na faculdade talvez signifique uma decepção tão grande que ter mesmo a decepção ter um filho gay não seja tão grande. Afinal, o dinheiro fala mais alto.

*Ficar rica

* Sorte

  O pessoal do CQC do dia 13/05, fez uma pergunta muito interessante que vou reformular: "se seu filho fosse transexual bissexual isso mudaria o caráter dele?", A resposta dos meus pais é sim. Mas sabe, eu compreendo eles, faz parte da cultura brasileira achar que ter uma sexualidade diferente ou é sacanagem ou burrisse ou "coisa do demônio". Por isso e por tudo que fizeram por mim, eu os perdôo. É preconceituosa a cultura? É, mas continua sendo cultura. E também eu perdoando eles, eu vou jogá-los na parede, pois terão que escolher entre uma filha que ajuda eles, liga para eles e sempre esteve lá mesmo quando renegada e uma sociedade que sempre esteve lá mas nunca ajudou e nem ao menos sabe da existência deles e mesmo que sabendo não se importaria?
  Aí quando responderem, vou saber se tenho uma família que é apenas escrita na minha identidade ou uma família real que eu protejo e me protegem.

" Até para realizar um sonho é preciso dinheiro."
Marlin Rose Jones

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