sábado, 11 de maio de 2013

Relato 009 : Branco

  Eu estava pensando na minha vida, todos esses anos para quê. E sabe outra coisa todo esse tempo passou em branco, tudo foi em vão.
  Cada ano, um ano em vão. Eu tenho bons pais, eu tenho família, eu tenho casa e eu tenho comida, mas não sei o por quê sinto um vazio e lembro que esse vazio sempre esteve comigo. Segundo a sabedoria popular tenho tudo, o irônico é que sinto o oposto.
  Meus pais são ótimos, mas nunca poderia contar com eles para me ouvir, receber bons conselhos, me dar um pouco de carinho e compreensão, e isso é tudo que dão para os outros filhos. O que há de errado comigo? Faço tudo o que é certo para eles: não pareço gay, não roubo nada de ninguém, não bebo bebida alcoólica, não parei de estudar e sou responsável.
  Sabe, isso é tudo que eles pedem, será que querem mais?
  Eu poderia fazer um livro bem grosso só com coisas que deixei de fazer só por causa deles. Os meus outros familiares são bem vazios, eu penso, só falam de preços de coisas que compraram, programas de tv, da vida dos outros, sobre doenças que tem, sobre o que tem que comprar para os filhos(e não sobre os filhos) e no final tudo isso é só para alimentar a idéia de que são felizes e seriam mais se fossem ricos.
  A minha volta, na escola por exemplo não vejo ninguém indo porque tem que estudar mas porque ganham um diploma e esse diploma garante à eles um bom salário, não é nem pelo emprego mas pelo salário.
  Te digo uma coisa criatura que sabe ler e está lendo isso, eu deveria sair de casa? Contar toda essa história de ser bissexual e sair de casa? A resposta é não.
  Eles são homofobicos certo, e são homofobicos ignorantes não sabem distinguir um gay de um bissexual, são bem conservadores quanto à opnião, são à favor da pena de morte e da redução da maioridade penal. Imagine, se iriam me aceitar? A resposta é um NÃO bem grande.
  E mesmo que não me expulsassem de casa por obrigação (já que por compreensão e amor é meio improvável), viveriam de cara feia e me tratando mal. Se esse for o caso, eu mesma saio de casa.
  E se me expulsarem de casa, acho que sobreviver seria difícil. Porque nunca trabalhei, não tenho experiência, e mesmo que conseguisse um emprego, você acha que logo no primeiro emprego vou conseguir algum que ofereça um salário capaz de eu poder me sustentar? Novamente a resposta é não.
É triste, na verdade não é tanto. Mas todo esse vazio não gira apenas na minha sexualidade. Eu sou diferente, na verdade excessivamente, pessoas diferentes são como câncer para as pessoas comuns.
  Meus pais são deste grupo, então qualquer aspiração de eu acabar sendo a diferente é cortada por eles. Só me deixaram ter aula de violão porque podia ser um hobby. E se eu quisesse fazer carreira? Eu lembro eles falando :" você não vai fazer carreira né?" eu perguntei " e se eu quisesse? eles "não, isso não dá dinheiro".
  Até agora só falei mal dos meus pais, só fiz isso porque eles foram os que me ensinaram valores que não acreditava na infância.
  Na minha vida nunca fiz nada porque quis mas sim por obrigação. Ir à escola, ter amigos falsos, mostrar vaidade.
  Tudo obrigatório.
   A única coisa na minha vida inteira, nesses 16 anos 4 meses e 13 dias e 58 minutos, que eu fiz por pura vontade própria foi tocar violão.
   Às vezes com todo esse vazio, em branco, me pergunto de quem devo culpar as pessoas que o causaram, os meus pais, ou eu mesma? O engraçado é que sinto a culpa. Sinto que mereço viver menos do qualquer um.
  Sim, talvez eu devesse sim, me matar.
  Abrir mão de todas as coisas boas que me poderiam acontecer e toda dor que ainda posso sentir, e que já sinto como nunca.
  Eu escreveria adeus se pudesse me matar, mas não tenho dinheiro para comprar uma arma.

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