segunda-feira, 6 de maio de 2013

Relato 008:Cinza

  Acordo de manhã com um desânimo mortal, esperando mais um dia cinza. Me arrumo rápido para conseguir tomar café e ainda conseguir chegar no ponto de ônibus. Não é nada, mas de manhã eu percebo o quanto inútil é o que vou fazer não só naquele dia, a semana, o mês, o ano e não nada que eu possa fazer, ops! Na verdade posso, é que sinto um amor pela minha imobilidade em não mudar ou a imobilidade me ama?
  Chego no ponto de ônibus, vejo muitos rostos conhecidos, muitos deles me reconhecem, fingem que que eu não existo e a vida segue cinza. Aquele ônibus velho, de um transporte público ineficiente numa cidade com trânsito ineficiente, lindo!Essas duas coisas combinam muito bem, apenas penso "sorte minha eu não precisar ir às 5 da tarde para casa depois de um longo dia de trabalho". Sento no fundo, porém perto da porta para que no terminal eu saía o mais rápido possível. Vou entorpecida pela música que amo, Green River, Mudhoney, Led Zeppelin, Soundgarden, Butthole Surfers, Mother Love Bone, Daddy Hate Box, Skin Yard, todos loucos e completamente certos no que dizem em suas letras. Chego no terminal, praticamente fujo daquele ônibus para correr até uma enorme fila que se forma para pegar outro ônibus.
  Novamente rostos familiares, nada. Não ligo mais. Apenas espero mais um ônibus, mais ônibus lotado, mais um ônibus com pessoas com algo em comum: estão no mesmo lugar, no mesmo momento.
  Graças à música essa viagem é menos ruim. A viagem demora pouco tempo graças ao poder que a música tem de acelerar o tempo e assim podemos ir para o futuro e para o passado também, só que só podemos ver o passado e o futuro se torna o presente. No terminal o meu futuro era estar na escola, naquele momento era o presente.
  Na escola técnica que faço para ter um emprego decente, mais rostos familiares mais nada. Alguns dizem oi, se fosse em outro lugar.................. nada.
   Me sento nos bancos confortáveis perto da recepção, lá eu posso sentir melhor a música que faz o meu dia um pouco menos insignificante e lixo. Não é que não goste de estudar, eu não gosto da aula. Professores explicam a sua matéria, os alunos escutam obrigatoriamente, porque duvido se fazem porque gostam mesmo de computação ou de arrumar pcs, eu achava que gostava a cada dia vejo que não. A maioria está ali porque isso "dá dinheiro", não porque amam, sinceramente acho essa pessoa nem estuda comigo mas em outro curso de manutenção de pcs, o da aprendizagem industrial ( o meu curso é técnico). Sabe lembro de um dia que estava num banco meio que no corredor da escola, um garoto gigante veio me cumprimentar, porque eu fiz os primeiros meses desse curso com ele depois fui sorteada para o curso técnico e ele não, não lembro bem exatamente o que ele me disse mas era sobre pcs. Era extraordinário, vi o brilho nos olhos dele, ele realmente amava aquilo. Me senti mal depois.
   Enfim, faço por obrigação mesmo não sendo obrigatório. Sento perto dos que falam comigo(dizem oi). A aula começa, hoje é segunda-feira, odeio segunda, terça, quarta, quinta, menos sexta. Professora de qualidade, saúde e meio ambiente tenta ser legal, digamos que consegue mas não muito.
  Agora te digo que são quatro horas de aula de manhã  e quatro à noite(em outra escola só que de ensino médio), a única diferença é que de manhã a escola tem uma estrutura e administração, à noite o exato oposto. As duas tem algo em comum: drenam as minhas energias, faço por obrigação e ninguém nelas liga pra mim ou se liga é culpa minha, sou muito bonita e faço as pessoas se sentirem constrangidas com isso. Risos.
  O dia todo uma perda de tempo, não porque estudei, mas porque a escola deveria ser legal, ela deveria me guiar até o aprendizado e não estuprar a minha cabeça com ele.
  Esse post ruim, foi feito pra você que reclama que a sua vida é sem graça, imagine se todos os seus dias fossem assim, 6 dias na semana (estudo sábado). É tão repetitivo que escrevi sobre segunda um dia antes, é um processo matemático, uma prisão sem grades.
  Não quero isso pra minha vida(nem pra sua), vou terminar esse curso para conseguir um emprego decente, sabe sou trans e geralmente o único emprego, graças ao preconceito, para uma garota trans é a prostituição. Não quero me prostituir, só quero um emprego para conseguir sobreviver sozinha e ainda comprar a minha guitarra, só quero isso. É pedir demais?

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